O deslocamento entre Rafaela, na província de Santa Fe, e La Banda, em Santiago del Estero, foi longo. Umas 15 horas dentro de uma locomotiva que andava há uns 40 quilômetros horários. Além da experiência, a ideia era economizar: o trem me custou 95 pesos, enquanto um ônibus seria cerca de 800 pesos. Pelo menos, havia gente divertida que tocava violão, cantava e dançava chacarera, ritmo tradicional argentino (sim, dançava, no meio do vagão).

A música era a atração principal dessa viagem. Vivenciar o famoso festival Cumpleaños de la Abuela era o objetivo. Essa grande festa do folclore argentino celebra anualmente o aniversário de María Luisa Paz de Carabajal, que faleceu em 1993. A “avó”, como é conhecida, completaria 115 anos em 2017. A família Carabajal é, talvez, o nome mais importante da música tradicional do país. Foram três dias de muita chacarera, muita zamba e muita comida típica (especialmente empanadas, espécie de pastel assado). Encontrei um amigo que conheci primeiro em La Pedrera, no Uruguai, e, depois, em Tilcara, na Argentina. Fiquei com ele e seus vizinhos a maior parte do tempo.

Estava com eles quando aconteceu uma das coisas mais impressionantes da trip. O evento é organizado na cidade de La Banda, mas eu estava hospedada em Santiago del Estero, a uns 10 quilômetros. Já não havia mais ônibus para voltar e já comecei a imaginar que teria que me arriscar a pé. Pedi informações a uma policial e ela, ao contrário de toda a fama da polícia argentina, foi muito simpática e, além do mais, me ofereceu carona no seu carro. Esperei meia hora para que terminasse seu turno e voltamos juntas para Santiago.

O festival movimenta muito os municípios e minha host do Couchsurfing me convidou para ir no Patio do Indio Froilan, um clássico santiaguenho. “Patios” são grandes espaços privados, em geral de chão batido, onde se celebra o folclore e a tradição. Lá, conhecemos uns meninos de La Rioja, município que eu cogitava em visitar. Conversa vai, conversa vem, eles me disseram que voltariam pra casa no dia seguinte e me levariam, caso eu quisesse.

As cinco horas de viagem foram tranquilas, com paisagens que variavam entre o lindo e o monótono. A cidade não tem grandes atrativos na região central. Peguei, então, uma van até o Dique Los Sauces, um trajeto de aproximadamente 15 quilômetros. Um lugar tranquilo entre as montanhas, com um destaque para o lago que se forma entre elas. Nessa calmaria, caminhei ao redor da água por algumas horas. Para voltar, decidi tentar carona antes que a van passasse e um senhor mais velho foi quem me deixou na frente do hostel. Fazia bastante tempo que eu não pedia carona na beira da estrada e foi importante para minha confiança. Nessa noite, peguei um ônibus que me levou, em oito horas, até Mendoza, minha última parada na Argentina.

 

Por Rafaela Ely.